quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Affair


A ansiedade tomava todo o meu ser. Faltavam apenas quinze minutos para o avião pousar, a contagem regressiva para uma nova fase, novos costumes, novo idioma, meu primeiro intercâmbio. A confiança também estava presente, isso era fato, assim como meus longos cabelos cor-de-laranja, sorriso doce, pele branca e cheia de sardas. Não seria difícil me adaptar, afinal, dá para fazer muita coisa em um ano.
As duas primeiras semanas passaram com uma velocidade absurda, todos os grupos de estudo já se encontravam foras das aulas para sair aos sábados à noite. Mas eu não gostava de muita badalação, preferia jogar papo fora, assistir a um filme, ler um livro...
Na sexta pela manhã, num período livre das aulas, resolvi sentar na praça de alimentação para comer algo enquanto checava os e-mails. Pedi um lanche e um suco e já ia sentar no balcão quando um colega me avistou e fomos sentar nos bancos acolchoados, longe do barulho.Nós não conversávamos muito, na verdade só tínhamos discutido assuntos em sala. Sentamos e abrimos nossos laptops.
- E aí, muitos e-mails urgentes?
- Que nada, a maioria é da família. Sabe como são os pais, ficam desesperados por notícias da filha.
- Esses pais superprotetores nunca mudam – disse ele entre sorrisos enquanto tomava um gole de capuccino.
- E você? Correndo com os trabalhos? – perguntei apontando para uma pilha de rascunhos.
- Ah, não. É só um trabalho, mas é particular.
- O que é?
- É um livro que estou escrevendo.
- Um livro? Nossa, sobre o que é?
Passamos a manhã inteira conversando sobre nossos autores favoritos, poemas, livros, músicas, filmes e ficamos inseparáveis. Passávamos o maior tempo possível juntos e ele me deixava em frente ao meu apartamento todos os dias após as aulas.
Em uma noite de domingo, como de praxe, eu colocava um filme no DVD quando a campainha tocou. Olhei no olho-mágico e era ele. Abri a porta.
- Olha só o que eu consegui! – começou ele histérico.
- Que felicidade é essa?
- Eu tenho dois ingressos para o lançamento daquele livro.
- O quê? Fico pronta em meia hora.
Foi uma das melhores noites da minha vida. Nós bebemos, comemos, tiramos fotos, pegamos autógrafos, ele me deixou na porta do prédio e... me beijou.
Tudo aconteceu tão naturalmente, que parecia familiar. Mas desde o momento em que ele se foi eu soube que no dia seguinte tudo voltaria ao normal, que nossas vidas seriam as mesmas, como se domingo a noite nunca tivesse acontecido.
Na manhã seguinte tudo caminhava como o esperado até o momento em que chegamos à minha casa. Ele pegou os livros da minha mão, chegou mais perto, segurou minha nuca e me beijou.
Ele me deixava tonta, boba, feliz. Eu não me importava se nós estaríamos juntos para sempre, um ano, ou agora. Eu só queria estar com ele.
Nós nos divertíamos a nossa maneira. Às vezes fazíamos tudo, às vezes fazíamos nada. Raramente éramos vistos em público. Eu adorava ouvi-lo contar seus sentimentos, suas viagens, suas aventuras, era como viver tudo mesmo estando parada.
Os dias foram se formando, os meses foram passando , até que chegou a hora de voltar para casa. Minha aventura precisava de um ponto final. Ele ficaria aqui por mais um tempo.
Então fiz minhas malas e entrei no avião.
O que me esperava agora?


“It’s really good to hear your voice saying my name
It sounds so sweet
Coming from the lips of an Angel”
Hinder – Lips of an angel

Texto: Rhanna Ramos
Revisão: Lene Fernandes

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